É perigoso refletir sobre a vida. Perigoso não, revelador. E a tal revelação é que pode acabar sendo perigosa. Hoje, por exemplo, parei para pensar sobre relacionamentos. Relacionamentos amorosos, para ser mais específica. Meus pensamentos foram, voltaram, deram mais uma voltinha e pela primeira vez na vida ficou claro para mim, tão claro que me parece absurdo essa conclusão ter vindo à tona só agora: eu sou lésbica. Sim, lésbica. Daquelas com L maiúsculo.
Eu cheguei na casa do Márcio e fui logo avisando que tinha uma novidade para contar. Ele se sentou e a notícia saiu da minha boca como canto de passarinho. Suave, seguindo seu curso natural. Nem parecia que eu estava falando com o meu namorado (hoje ele é ex-namorado). Ele, é claro, ficou puto. Não, mentira. Primeiro ele franziu a sobrancelha, daí eu repeti a frase e aí então ele ficou puto. Começou a me xingar, disse que eu destruí seus sonhos, que ele sempre desconfiou que eu traía ele, só não imaginava que fosse com outra mulher, que eu era uma vagabunda mesmo e não valia a água da salsicha. A ÁGUA DA SALSICHA!, gritava. Mas depois a coisa melhorou. Quer dizer, ele se acalmou e veio a parte do drama (que sempre vem, uma hora ou outra). As acusações se foram e deram lugar aos pedidos. Que por favor eu não largasse ele, que eu era tudo que ele tinha, que ia se matar se eu o abandonasse. Chorou, gritou, esperneou. Depois de todo o show, eu consegui falar novamente e disse “Viu, eu sou casada com uma mulherzinha. Não disse que eu era lésbica?”. A partir daí eu já não lembro de mais nada, porque, segundo os médicos, o notebook bateu com muita força na minha cabeça.
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